Saulo Jennings: O Chef que Recusou o Príncipe William

Chef Saulo Jennings recusou cozinhar para o Príncipe William. Entenda por que ele defendeu os peixes da Amazônia e chamou o menu 100% vegano de "colonialista"....
Saulo Jennings O Chef que Recusou o Príncipe William
Saulo Jennings participa de projeto de manejo de pirarucu em Santarém. Foto: Vitor Alvarenga/Divulgação

Saulo Jennings: Por que o Chef Paraense Recusou Cozinhar para o Príncipe William

Imagine o cenário: você é um chef de cozinha e recebe um convite para o evento de inovação climática do Príncipe William, em Nova York. Sua missão é cozinhar para algumas das pessoas mais influentes do mundo. É o tipo de oportunidade que define uma carreira, certo? Para o chef paraense Saulo Jennings, foi uma oportunidade de dizer “não”.

A notícia de que Saulo Jennings se recusou a participar do Earthshot Prize Innovation Summit não foi um ato de capricho, mas um ato de coragem e coerência política. O motivo? O evento, organizado pela Bloomberg Philanthropies, exigia um menu 100% vegano (plant-based). Para Saulo Jennings, um embaixador da culinária amazônica, aceitar isso seria trair tudo o que ele defende: a economia da floresta em pé, o povo ribeirinho e o peixe de manejo sustentável.

Quem é Saulo Jennings: A Voz da “Cozinha de Tapajós”

Para entender a recusa, é preciso, antes de mais nada, entender quem é Saulo Jennings. Nascido e criado em Santarém, no Pará, Saulo Jennings não é apenas um cozinheiro; ele é, talvez, a principal voz da “cozinha de Tapajós”. Seu renomado restaurante, a Casa do Saulo, é mais do que um destino gastronômico; é um manifesto cultural fincado às margens do rio.

A cozinha de Saulo Jennings é uma cozinha de identidade. Ele cresceu vendo o peixe não apenas como alimento, mas como o centro da vida social, econômica e cultural da Amazônia. Sua carreira foi construída sobre a valorização desses ingredientes, mas, principalmente, sobre a valorização das pessoas que vivem da floresta. Ele entende que a gastronomia é uma ferramenta poderosa de transformação social.

Portanto, quando Saulo Jennings é chamado para representar a Amazônia, ele não leva apenas o cupuaçu ou o açaí; ele leva o ribeirinho, o pescador, o extrativista. Ele leva a complexidade de uma economia que luta para provar que a floresta em pé vale muito mais do que a floresta derrubada.

O Convite e a Condição: Uma “Visão Colonialista”

O convite para cozinhar no evento em Nova York era, sem dúvida, prestigioso. O Earthshot Prize é uma iniciativa do Príncipe William para encontrar soluções para a crise climática. O evento reuniria líderes globais, filantropos e investidores. A intenção da organização, ao exigir um menu 100% plant-based, era clara: passar uma mensagem de baixo impacto de carbono, alinhada com um discurso ambiental global que vê a pecuária e a pesca como vilãs.

O problema, como Saulo Jennings apontou, é que essa lógica “universal” é uma “visão gringa” e “colonialista”. Em entrevista à BBC, ele usou termos fortes, chamando a imposição de “arrogante”. Por quê? Porque ela ignora completamente a realidade local da Amazônia. É uma regra criada em um escritório em Nova York ou Londres que, ao ser aplicada na Amazônia, acaba punindo exatamente quem está preservando a floresta.

Para Saulo Jennings, a sustentabilidade não é uma “receita de bolo” que pode ser aplicada da mesma forma em todo lugar. A sustentabilidade na Europa pode ser reduzir o consumo de carne. A sustentabilidade na Amazônia, ironicamente, pode ser incentivar o consumo do peixe certo. Ao proibir o peixe, o evento estava, nas palavras do chef, praticando “greenwashing”: parecendo verde e sustentável, mas promovendo uma ideia que, na prática, prejudica a conservação.

A Defesa do Peixe: A Verdadeira Economia da Floresta em Pé

A indignação de Saulo Jennings tem um foco muito claro: o peixe de manejo sustentável, em especial o pirarucu. O que os organizadores do evento não entenderam é que o consumo de peixes como o pirarucu de manejo não é parte do problema; é a principal solução para a conservação.

Vamos entender o que é o “manejo”:

  • Antes: O pirarucu, o gigante dos rios, estava sendo dizimado pela pesca predatória e ilegal, quase à beira da extinção.
  • O Manejo: Comunidades ribeirinhas, com apoio de ONGs e do governo, assumiram a proteção dos lagos. Elas passam a vigiar contra invasores e, uma vez por ano, fazem a contagem dos peixes.
  • A Pesca: Apenas uma cota (cerca de 30% dos peixes adultos contados) é autorizada para a pesca. Isso garante que a população de peixes não apenas sobreviva, mas aumente ano após ano.

O resultado é uma revolução socioeconômica. Os ribeirinhos, que antes eram explorados, passaram a ter uma renda digna vinda da floresta. O dinheiro ganho com o manejo do peixe (e de outros produtos, como açaí e castanha) se tornou muito mais vantajoso do que as ofertas do desmatamento ilegal, da pecuária ou do garimpo.

Ou seja: o peixe vivo, no lago, e a floresta em pé, passaram a valer mais do que a floresta derrubada. Ao comer um pirarucu de manejo, você não está degradando o meio ambiente; você está financiando o guardião da floresta. A recusa de Saulo Jennings foi para defender esse sistema.

A Coragem de Dizer “Não” pela Amazônia

Saulo Jennings explicou à BBC que tentou argumentar com a organização. Ele se ofereceu para levar o pirarucu de manejo, para explicar essa história, para mostrar o case de sucesso. A resposta foi um “não” taxativo: a regra era 100% plant-based. Diante da inflexibilidade, o chef paraense também foi inflexível.

Ele afirmou que sua culinária é “política” e que, se fosse ao evento para cozinhar apenas pratos com vegetais e frutas, estaria “tirando o protagonismo” das pessoas que ele representa. Seria um desserviço à causa que ele defende há décadas. Seria como ir a um evento sobre a cultura da França e ser proibido de usar queijo ou vinho.

Outros chefs brasileiros, como Manuelle Ferraz e Onildo Rocha (que Saulo Jennings fez questão de dizer que respeita), aceitaram o convite e cozinharam pratos amazônicos à base de plantas. Mas para Saulo Jennings, sua missão era outra. Ele não estava ali para ser um “chef exótico” que serve açaí para estrangeiros; ele estava ali para representar a economia real que mantém a floresta viva.

Conclusão

A decisão de Saulo Jennings de recusar o convite do Príncipe William é um dos atos de maior coerência e coragem vistos na gastronomia moderna. Ele colocou suas convicções e a defesa do seu povo acima de uma oportunidade de fama global. Sua recusa não foi apenas sobre um ingrediente, mas sobre o direito da Amazônia de definir o que é sustentabilidade para si mesma. Para nós, do Receita Sem Fim, fica a lição de que a gastronomia vai muito além do sabor; é identidade, é cultura e, nas mãos de um chef como Saulo Jennings, é uma poderosa ferramenta de transformação.


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